Por que cultivar a Chacrona na sombra pode ser a melhor escolha para a sustentabilidade da Ayahuasca

A Psychotria viridis, conhecida popularmente como Chacrona ou Rainha, é uma das plantas que compõem a ayahuasca juntamente com o cipó Banisteriopsis caapi (Jagube). Originária da Floresta Amazônica, ela evoluiu durante milhares de anos em ambientes quentes, úmidos e protegidos pela copa das árvores.

Com o crescimento do uso da ayahuasca em diferentes regiões do Brasil e do mundo, surgiu uma pergunta importante:

Como cultivar a chacrona de forma saudável e sustentável fora da Amazônia?

Essa questão motivou diversos pesquisadores a estudarem o comportamento da espécie em diferentes condições de cultivo.

O que a pesquisa procurou descobrir?

Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) acompanharam durante vários anos o desenvolvimento de mudas de Psychotria viridis cultivadas em dois ambientes diferentes:

  • uma área totalmente exposta ao sol;

  • uma área sombreada por árvores, em um sistema agroflorestal.

Como todas as mudas eram clones da mesma planta-matriz, qualquer diferença observada seria causada principalmente pelo ambiente de cultivo.

O que aconteceu com as plantas cultivadas ao sol?

Embora tenham sobrevivido, as plantas cultivadas sob sol intenso apresentaram sinais claros de estresse.

Entre as principais mudanças observadas estavam:

  • folhas menores;

  • folhas mais grossas;

  • coloração mais amarelada;

  • menor quantidade de domácias (pequenas estruturas naturais presentes nas folhas);

  • maior necessidade de irrigação;

  • maior vulnerabilidade ao ataque de insetos.

Essas alterações mostram que a planta precisou gastar mais energia apenas para suportar as condições ambientais.

E as plantas cultivadas na sombra?

O resultado foi bastante diferente.

As mudas cultivadas sob árvores cresceram em um ambiente muito mais parecido com a floresta amazônica.

Os pesquisadores observaram:

  • folhas maiores;

  • melhor desenvolvimento geral;

  • maior número de domácias;

  • menor necessidade de irrigação;

  • maior resistência durante os períodos secos.

Além disso, o ambiente sombreado criou um microclima mais estável, reduzindo os impactos das altas temperaturas e da radiação solar.

O que são as domácias?

Quem cultiva chacrona provavelmente já ouviu falar nas chamadas "guias" ou "velas" presentes na parte inferior das folhas.

Na ciência, essas estruturas recebem o nome de domácias.

Elas funcionam como pequenos abrigos para ácaros benéficos, que ajudam a controlar fungos prejudiciais às plantas. É um exemplo interessante de cooperação natural entre diferentes organismos.

A pesquisa mostrou que plantas cultivadas sob forte exposição solar apresentaram uma redução significativa dessas estruturas.

O que é um sistema agroflorestal?

O sistema agroflorestal (SAF) consiste em cultivar diferentes espécies vegetais juntas, imitando a organização da floresta.

Em vez de deixar a chacrona isolada em pleno sol, ela cresce ao lado de árvores que oferecem sombra, ajudam a conservar a umidade do solo e favorecem a biodiversidade.

Além de beneficiar a planta, esse tipo de cultivo também:

  • protege o solo;

  • reduz a necessidade de irrigação;

  • melhora a ciclagem de nutrientes;

  • aumenta a diversidade de espécies;

  • favorece o equilíbrio ecológico.

O que isso significa para quem cultiva a ayahuasca?

O estudo reforça algo que muitos cultivadores tradicionais já observavam há décadas: a chacrona prefere ambientes semelhantes aos da floresta.

Isso não significa que seja impossível cultivá-la em outras condições, mas quanto mais próximo do seu habitat natural for o manejo, maiores tendem a ser as chances de obter plantas vigorosas e saudáveis.

Práticas como:

  • utilizar árvores para gerar sombra;

  • preservar a umidade do solo;

  • evitar desmatamentos desnecessários;

  • promover sistemas agroflorestais;

contribuem não apenas para o desenvolvimento das plantas, mas também para a conservação ambiental.

Sustentabilidade começa no cultivo

À medida que cresce o interesse pela ayahuasca, aumenta também a responsabilidade de preservar as espécies que tornam essa tradição possível.

Cultivar a chacrona de forma consciente significa respeitar sua biologia, aprender com a ciência e valorizar o conhecimento acumulado por povos indígenas, comunidades tradicionais e cultivadores experientes.

No Instituto SOS Ayahuasca acreditamos que preservar o futuro da ayahuasca começa pelo cuidado com suas plantas sagradas.

Cada muda cultivada de forma responsável representa um pequeno passo para garantir que as próximas gerações também possam conhecer e preservar esse importante patrimônio biocultural.


Fontes

  • Santos, C. D. L. (2021). Avaliação do manejo de população clonal de Psychotria viridis segundo as condições ambientais e sazonalidade. Dissertação de Mestrado, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

  • Miranda, O. F. et al. (2020). Influence of environment on the leaf morpho-anatomy and histochemistry of Psychotria viridis cultivated in extra-Amazonian regions. Acta Scientiarum. Biological Sciences.

  • Cavalcante, A. D. et al. (2018). Influence of Environmental Factors and Cultural Methods on the Content of N,N-Dimethyltryptamine in Psychotria viridis. Journal of the Brazilian Chemical Society.

  • Artigo de divulgação científica: Cultivo de Psychotria viridis e a sustentabilidade da ayahuasca, Ciência Psicodélica (2021). Ciência Psicodélica