Tipos de Banisteriopsis caapi e diferenças de alcaloides entre eles
Introdução
Banisteriopsis caapi (Spruce ex Griseb.) C.V. Morton é uma liana lenhosa da família Malpighiaceae, nativa da Bacia Amazônica, conhecida por ser o ingrediente fundamental da ayahuasca, uma bebida psicoativa tradicionalmente utilizada por diversos povos indígenas e religiões sincréticas sul-americanas [1,9]. A planta contém alcaloides β-carbolínicos — principalmente harmina, harmalina e tetrahidroharmina (THH) — que atuam como inibidores reversíveis da monoamina oxidase (MAO), permitindo que a DMT (N,N-dimetiltriptamina), presente em plantas aditivas como Psychotria viridis, se torne oralmente ativa [5,9].
Variedades reconhecidas
Classificação botânica formal
Botanicamente, Banisteriopsis caapi é considerada uma única espécie, mas povos tradicionais que a utilizam reconhecem múltiplas entidades ou variedades [7]. O gênero Banisteriopsis sensu stricto compreende cerca de 57 espécies, das quais 47 ocorrem no Brasil [7]. A lectotipificação de B. caapi foi recentemente estabelecida com base no espécime Spruce 2712 depositado no herbário K (Kew) [7].
Variedades reconhecidas por grupos indígenas
Diferentes grupos étnicos da Amazônia reconhecem um número expressivo de variedades de B. caapi:
- Povos Siona (Colômbia): documentaram pelo menos 18 tipos de B. caapi, distinguidos por características como comprimento e largura do caule, tamanho e forma das folhas, e presença ou ausência de flores [5].
- Conhecimento geral amazônico: Schultes e colaboradores observaram que os nativos reconhecem pelo menos 30 tipos diferentes de B. caapi, todos com diferentes usos na medicina tradicional [5].
- Ayahuasqueros peruanos: afirmam distinguir até 10 tipos de lianas de B. caapi [5].
- Povo Piaroa (sul da Venezuela): identificam cinco variedades distintas de B. caapi (chamada tuhuipa em sua língua), classificadas pela cor da polpa do caule, potência e se a planta é cultivada ou silvestre [6]. As variedades incluem: yurina tuhuipa (polpa marrom-amarelada clara, mais comum e cultivada), kohö tuhuipa (polpa rosada), ubaku ukhuii chamurif tuhuipa (extremamente potente, somente silvestre), mae tuhuipa (descrita apenas como "outra cor"), e duhui huoika tuhuipa (considerada a mais forte de todas, com polpa amarelo-brilhante, obtida apenas da parte do cotovelo — seção bulbosa — de plantas muito maduras) [6].
Variedades reconhecidas por grupos religiosos brasileiros
Membros da União do Vegetal (UDV) reconhecem duas variedades principais [2,5]:
- Mariri caupuri (ou caupuri): caracterizada pela presença de nós intumescidos (swollen nodes) no caule [5]. Cresce próximo à linha do Equador [2].
- Mariri tucunacá (ou tucunacá): caracterizada pela ausência de nós intumescidos no caule (assim como as variedades amarelinho e ourinho) [5]. Prospera em climas mais frios do sul do Brasil [2].
Além dessas, o estudo de Santos et al. [5] identificou ainda outras descrições como pajezinho, caboquinho e quebrador, além de híbridos como "caupuri sem nós" e "tucunacá com nós" [5].
Perfil de alcaloides: diferenças entre as variedades
Composição geral de alcaloides
Todos os estudos confirmam que a B. caapi contém três alcaloides β-carbolínicos principais: harmina, harmalina e tetrahidroharmina (THH) [2–5]. Além destes, compostos minoritários como harmic amida, acetil norharmina, cetotetrahidronorharmina, N-óxido de harmina, éster metílico do ácido hármico, ácido harmalínico, banistenosídeos A e B, proantocianidinas (epicatequina, procianidina B2) também foram identificados [3,4,8].
O estudo mais abrangente já realizado — analisando 159 amostras de B. caapi — encontrou concentrações médias de 4,79 mg/g de harmina, 0,451 mg/g de harmalina e 2,18 mg/g de THH, com uma variabilidade extremamente alta entre as amostras (desvio padrão relativo de 78,9% a 170%) [5].
Diferenças entre caupuri e tucunacá
Callaway et al. [2] observaram uma tendência a níveis mais elevados de todos os alcaloides β-carbolínicos nas amostras de caupuri em comparação com as de tucunacá, embora essa diferença não tenha sido estatisticamente significativa [2]. Já Santos et al. [5], em um estudo com 159 amostras, encontraram que a média de β-carbolinas totais nas amostras caupuri (5,48 mg/g) foi menor que nas tucunacá (8,03 mg/g) — novamente sem significância estatística [5]. Portanto, não há diferenças estatisticamente significativas nos teores de alcaloides entre essas variedades morfológicas, e a razão das diferenças subjetivas relatadas pelos usuários ainda permanece um mistério [2,5].
Diferenças entre plantas nativas e cultivadas
Um achado relevante do estudo de Santos et al. [5] é que amostras de plantas nativas apresentaram níveis significativamente mais elevados de harmina (média de 5,315 mg/g) em comparação com plantas cultivadas (média de 3,43 mg/g) [5]. Além disso, amostras cultivadas no Distrito Federal e Goiás apresentaram maior teor de THH quando comparadas com plantas do estado do Acre [5]. Isso sugere que fatores ambientais — como incidência solar, tipo de solo e clima — influenciam significativamente a biossíntese e a biotransformação dos alcaloides [5].
Diferenças geográficas
Rivier e Lindgren (1972) já haviam demonstrado alta variabilidade no conteúdo de alcaloides de acordo com a região de origem e a parte da planta testada [6]. Observou-se uma tendência a concentrações mais elevadas de alcaloides em plantas de regiões equatoriais mais quentes em comparação com a variante morfologicamente distinta, mas botanicamente idêntica, que cresce em climas mais frios do sul do Brasil [2,6].
Diferenças no processamento (decocção)
Um aspecto crucial é que o processo de fervura para preparar a ayahuasca altera significativamente o perfil alcaloídico. Durante a decocção, a harmina é reduzida a harmalina e esta a THH, através de reações de redução em meio ácido [1,5]. Isso explica por que as bebidas prontas (ayahuasca) geralmente apresentam razões THH/harmina mais altas (aproximadamente 1:1) do que as encontradas na planta fresca (onde a razão é de aproximadamente 1:5) [1,5].
Diferenças entre partes da planta
A distribuição dos alcaloides varia conforme a parte da planta utilizada. Wang et al. [8] demonstraram que a casca seca do caule maduro/ramo grosso apresenta as maiores concentrações de marcadores bioativos — banistenosídeo A (0,31-0,71%), banistenosídeo B (0,81-1,93%), harmina (0,28-0,67%) e THH (0,04-0,10%) — seguidas pelo caule maduro seco e pelo caule descascado [8]. As folhas apresentam quantidades muito menores de β-carbolinas [8].
Os Piaroa utilizam exclusivamente o câmbio (a camada entre a casca externa e a medula) da B. caapi, descartando as demais partes [6]. Esta prática, combinada com o uso das seções de cotovelo de plantas muito maduras (consideradas extremamente potentes), pode resultar em preparações com perfil alcaloídico diferenciado [6].
Outros alcaloides minoritários
Além dos três β-carbolinas principais, a B. caapi contém diversos alcaloides minoritários que podem variar entre as amostras [3,4]:
- Harmina N-óxido (1b)
- Éster metílico do ácido hármico (1d)
- Ácido harmalínico (2b)
- Harmic amida (1-carbamoil-7-metoxi-β-carbolina)
- Acetil norharmina (1-acetil-7-metoxi-β-carbolina)
- Cetotetrahidronorharmina (7-metoxi-1,2,3,4-tetrahidro-1-oxo-β-carbolina)
- Banistenosídeos A e B (glicosídeos alcaloídicos tetrahidro-β-carbolínicos) [8]
- Proantocianidinas: epicatequina e procianidina B2 (compostos não alcaloídicos com atividade antioxidante) [8,9]
Implicações para o uso tradicional
As diferenças subjetivas relatadas pelos usuários entre as variedades — como o fato de o caupuri ser responsabilizado por causar desconforto gastrointestinal — não podem ser explicadas apenas pelo perfil dos três β-carbolinas principais (harmina, harmalina e THH) [5]. É possível que outros compostos químicos presentes na planta, bem como as variações no processo de preparação da bebida, contribuam para estas diferenças perceptuais [5].
Os Piaroa, por exemplo, descrevem que as diferentes variedades produzem efeitos variados: enquanto a duhui huoika tuhuipa é descrita como "tão forte que é campeã mundial", dando visões que "duram a noite toda", outras variedades são usadas principalmente para aumentar a empatia ("ver dentro das outras pessoas"), como estimulante, supressor de fome e para melhorar a visão noturna durante caçadas [6].
Conclusão
Embora a taxonomia formal reconheça Banisteriopsis caapi como uma única espécie, o conhecimento tradicional identifica dezenas de variedades baseadas em características morfológicas, ecológicas e organolépticas. Estudos químicos revelam uma enorme variabilidade no perfil de alcaloides β-carbolínicos entre diferentes amostras, influenciada por fatores genéticos, ambientais (região geográfica, solo, clima), estado de cultivo (nativa vs. cultivada), parte da planta utilizada e processamento (decocção). No entanto, não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas nos teores de harmina, harmalina e THH entre as variedades morfológicas caupuri e tucunacá [2,5], indicando que as diferenças subjetivas relatadas pelos usuários podem envolver outros constituintes químicos ainda não totalmente caracterizados.
Referências
[1]Callaway JC. Various Alkaloid Profiles in Decoctions of Banisteriopsis Caapi. Journal of Psychoactive Drugs. 2005;37(2):151-155
DOI: 10.1080/02791072.2005.10399796[2]Callaway JC, Brito GS, Neves ES. Phytochemical Analyses of Banisteriopsis Caapi and Psychotria Viridis. Journal of Psychoactive Drugs. 2005;37(2):145-150
DOI: 10.1080/02791072.2005.10399795[3]Hashimoto Y, Kawanishi K. New alkaloids from Banisteriopsis caapi. Phytochemistry. 1976;15(10):1559-1560
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DOI: 10.1002/tax.12407[8]Wang YH, Samoylenko V, Tekwani BL, et al. Composition, standardization and chemical profiling of Banisteriopsis caapi, a plant for the treatment of neurodegenerative disorders relevant to Parkinson's disease. Journal of Ethnopharmacology. 2010;128(3):662-671
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